Destaque Folha de São Paulo “Comércio de carbono chega às microempresas”

Pequenos recorrem a consultorias para uso de fórmula de compensação de impactos ambientais

Flávia G. Pinho

O termo compensação ambiental, que por muito tempo ficou restrito ao universo de grandes emissores de gás carbônico e geradores de resíduos, está batendo à porta dos micro e pequenos empreendedores.

Não se trata apenas de consciência individual: é cada vez mais uma imposição do mercado, de acordo com Miriam Duailibi, coordenadora do Instituto Ecoar, organização da sociedade civil que atua em questões ambientais.

Ela cita a pesquisa Consumo Consciente 2018, do SPC [Serviço de Proteção ao Crédito]. O estudo mostra que 71% dos consumidores preferem marcas comprometidas com ações ambientais e sociais.

Micro, pequenas e médias empresas que quiserem compensar sua emissão de carbono —plantando árvores correspondentes à quantidade de gases que o negócio produz— e ganhar o selo Carbon Free podem recorrer ao serviço de consultorias.

É o caso da Iniciativa Verde, que cobra a partir de R$ 1.000 anuais pelo selo. Segundo o diretor Lucas Pereira, as empresas de pequeno porte representam 40% da clientela.

“Fazemos um cálculo das emissões, indicamos quantas árvores devem ser plantadas e fazemos o plantio em áreas de preservação permanentes ou parques”, diz ele.

Há opções mais em conta para negócios de pequeno porte. Quem abraça o programa Amigos da Floresta, também da Iniciativa Verde, contribui para o plantio de árvores nativas em áreas desmatadas. Por R$ 440 é possível plantar 20 árvores.

A designer de moda carioca Gabriela Plater, fundadora da grife infantil Maré Kids, aderiu ao Amigos da Floresta há pouco mais de um mês e transformou a iniciativa em campanha para atrair clientes.

“A cada R$ 200 em compras, eu planto uma árvore. Já conquistei uma cliente, muito preocupada com as queimadas nas florestas, que ficou emocionada ao saber que seu vestido seria convertido em uma árvore”, diz Gabriela.

Segundo a designer de interiores Sara Rollenberg, sócia-fundadora da Inside Arquitetura, porém, o engajamento do público não chega a ser representativo, a ponto de se converter em novos negócios.

“Alguns clientes relataram que haviam nos escolhido porque somos sustentáveis, mas ainda é um posicionamento restrito a grupos mais conscientes, como os veganos.”

Ela diz não se importar. O escritório, especializado em reformas, não abre mão de compensar o impacto gerado pelas obras plantando árvores no programa Amigos da Floresta. “Em cinco anos, plantamos 104 árvores. É viável financeiramente porque só invisto quando há receita”, diz.

Mesma postura adota a diretora da empresa de logística Confiancelog, Rosemary Panossian. Ela investe R$ 25 mil por ano para compensar as emissões de seus caminhões refrigerados, que transportam mercadorias de indústrias para lojas de São Paulo, e das câmaras de armazenamento do novo centro de distribuição, na zona norte de São Paulo.

“Ter o selo Carbon Free ainda não gera o retorno de marketing que esperávamos, mas é uma questão de tempo até que toda a cadeia produtiva incorpore essa cultura”, diz ela.

Outra opção já disponível para as micro, pequenas e médias empresas é a compensação dos impactos ambientais através da reciclagem.

Embora a Política Nacional de Resíduos Sólidos dispense pequenos empreendedores de se responsabilizar pelo retorno dos produtos descartados, empresários como Carolina Potenza, fundadora da Natural e Ponto, tomam essa iniciativa de forma voluntária.

Por ano, ela produz três toneladas de granolas artesanais, castanhas drageadas e brigadeiros de avelã. Os produtos, todos veganos, chegam às lojas em 6.000 embalagens de papelão e plástico, certificadas com o selo Eureciclo.

Isso significa que a Natural e Ponto destina R$ 1.000 por ano a cooperativas de catadores por meio da New Hope Ecotech, startup especializada em créditos de reciclagem.

Criado em 2016, o selo Eureciclo estampa embalagens de 600 clientes. O plano de compensação custa a partir de R$ 39,90 mensais.

Na prática, diz o fundador da New Hope, Thiago Pinto, é como se a empresa contratasse diretamente uma cooperativa de catadores para coletar seus resíduos recicláveis.

Carolina, da Natural e Ponto, diz acreditar que ter o selo Eureciclo faz diferença para o negócio, principalmente por conta de seu público vegano.

“Temos um feedback muito positivo nas redes sociais e nas degustações que promovemos nos pontos de venda.”

Outra certificação que começa a ganhar força no Brasil é a de Empresa B. O selo, conferido pela organização internacional Sistema B, não se refere diretamente à compensação ambiental: para conquistá-lo, a empresa precisa comprovar que gera uma série de benefícios socioambientais.

Em seis anos, a organização já certificou 160 empresas. Mais 4.450 estão tentando obter o certificado.

O carioca Teva Restaurante e Bar de Vegetais, que inaugurou uma filial em São Paulo, foi o primeiro do setor a ostentar o título de Empresa B.

O proprietário Daniel Oelsner enfrentou um processo de análise minucioso, que durou cinco meses, até conseguir o documento. “Precisei comprovar que privilégio fornecedores orgânicos locais, que nossos colaboradores não dependem de grandes deslocamentos para chegar ao trabalho, entre outras coisas”, conta.

Para o fundador da New Hope, pequenos precisam pensar grande quando o assunto é o ambiente. “O impacto gerado por uma microempresa também é micro. Mas ele se torna bastante relevante quando consideramos que, só no Brasil, há um universo de milhões dessas empresas.”

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